Perfil: Bird Clemente

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O desenvolvimento do automobilismo brasileiro se deve muito a esse gênio das pistas. Os mais novatos provavelmente não o conhecem, mas os veteranos tenham certeza, que possuem alguma história de alegria ou de conquista junto com ele.  Pouca gente pode dizer que foi tão íntima de Interlagos quanto Bird Clemente. Ou ninguém. Ele diz ser a pessoa que mais acelerou pelo autódromo paulistano. No período em que passou dias enoites no circuito, tornou-se o mais bem-sucedido piloto brasileiro sem uma carreira internacional.

Nascido em São Paulo em 23 de dezembro de 1937, Bird —cujo nome refere-se a Richard Evelyn Byrd, aviador norte-americanoque explorou o Polo Sul — era um adolescente do bairro do Pacaembuquando foi estudar Agrimensura no Mackenzie. O que, de uma forma ou de outra, mudou sua vida. Lá conheceu Tito Martins, que rapidamente o apresentou para seu irmão, Eugênio Martins, que já corria. Foi o início de um útil e influente ciclo de amizades.

Filho de um apaixonado por automobilismo que trabalhava noramo de artefatos de papel, Bird não demorou muito a conseguir realizar seu desejo. Ganhou um carro. E começou a frequentar Interlagos com uma assiduidade que impressionava a família. As lembranças do antigo Interlagos ainda estão na cabeça de Bird. Em suas palavras, para o público o autódromo era “maravilhoso” e para os pilotos era “espetacular”. Para os espectadores, Interlagos era uma grande arena que proporcionava uma ampla visão de quase toda a pista. Para os competidores, havia os mais variados tipos de curvas e relevos. A infraestrutura, porém, não era das melhores. O público se acomodava em barrancos, onde hoje são as arquibancadas. Neles, havia cortes de níveis, nos quais existiam caibros, elementos estruturais de um telhado, pintados de branco, demarcando pequenas áreas, os “camarotes”. Não havia escadas para comunicar um nível ao outro. Os pilotos tinham à disposição acomodações precárias. Eram boxes com telhas de amianto, divididos por paredes de alvenaria. Havia um toalete muito rústico. Existia uma torre, também feita de alvenaria, muito simples, onde ficavam os fiscais de prova. Embaixo daquela torre havia uma pequena área, uma sala. Do outro lado da pista, existia uma acomodação coberta onde ficava a cronometragem. Ligando o público com os boxes, uma ponte. Normalmente, os jovens pilotos daquela época usavam pseudônimos para que seus pais não soubessem que corriam. Mas Bird não conseguiu esconder-se por muito tempo. Prestes há completar 21 anos, em novembro de 1958, disputou sua primeira corrida, as Mil Milhas Brasileiras, em parceria com Luiz Pereira Bueno, a bordo de um Fiat 1100.

A carreira de Bird Clemente ganhou impulso quando, em 1960, a Vemag montou um departamento de competição. A montadora brasileira tinha licença para fabricar o DKW e resolveu contar Bird para representá-la nas pistas, bem como com Mário César de Camargo Filho, o Marinho. Além disso, com Jorge Lettry como chefe de equipe, a montadora contratou mecânicos especializados para cuidar dos carros de corrida. Um ano antes, Bird já havia corrido com um DKW da revenda Serva Ribeiro, com Eugênio Martins, e deixado seus colegas impressionados.

Quando fazia longas baterias de testes para a montadora, durante as quais ficava íntimo das curvas e da neblina de Interlagos, Bird, piloto de fábrica pioneiro, praticamente morava lá, já que testava carros dias e noites dentro do laboratório que era o autódromo paulistano.

Apesar de não serem funcionários da Vemag, Bird e Mário foram praticamente garotos-propaganda da montadora enquanto pilotavam para ela. Como tinham um ótimo relacionamento com a marca, conseguiram carros de frota para uso pessoal. No entanto, em 1963, Bird, seduzido com o salário que ganharia só para pilotar carros, passou a ser piloto da Willys. Com a morte de Christian Heins nas 24 Horas de Le Mans, Luiz Antônio Greco assumiu a chefia da equipe e tirou Bird da Vemag.

Com uma carreira encerrada em 1974, o atual morador da Granja Viana, na Grande São Paulo, ganhou as principais corridas: 500 Quilômetros, Mil Milhas, 24 Horas. Bird Clemente, pai de quatro filhos e casado com a irmã de Ciro Cayres, parou de correr com 37 anos porque, segundo ele, estava cansado da rotina. E, quando saiu do esporte, saiu de uma vez. As Mil Milhas de 1973 foram uma de suas últimas provas e representaram sua última grande conquista na carreira. Bird, muito obrigado por tudo o que você fez por nosso automobilismo…

Fonte: Coluna – Pelas Pistas

Samoel Weck é jornalista e apresentador de rádio e TV a 30 anos. Diretor e responsável pela Mídia Carros e Marcas, que engloba o Portal Carros e Marcas e o Programa Carros e Marcas TV.