Museu do Dodge, exemplo de iniciativa

O descaso governamental para a história da indústria automobilística nacional é gritante. Incrível como o 4º maior fabricante de veículos da atualidade não tem um espaço bancado pelo governo federal, estadual ou municipal para que nossa rica história sobre rodas fosse contada para nós mesmos, nossos filhos, netos, bisnetos…

No entanto, algumas pessoas abençoadas que têm na cabeça aquela frase de um autor desconhecido "o país que não sabe sua história é um país sem futuro", felizmente, conseguem preservar um pouco do passado a partir de iniciativas particulares, com pouco ou nenhum apoio. Um desses iluminados é Alexandre Badolato, que aos poucos, com recursos próprios, vai construindo o Museu do Dodge, na região de Campinas, interior de São Paulo.

Confiram a entrevista com Badolato, na qual revela um pouco da saga de construir um museu em solo brasileiro:

ANTIGOMÓVEL – Antes de mais nada, quais os motivos que o levaram a construir o Museu do Dodge?
ALEXANDRE BADOLATOMinha coleção cresceu, precisava e queria ter um lugar que abrigasse todos os carros. Além disso, os Dodges nacionais são carros que foram dizimados. Muitos modelos quase desapareceram, como os Charger LS 75, das quais conhecemos apenas 4 unidades sobreviventes. O museu foi uma tentativa de se salvar esta história. E acho que o Museu do Dodge cumpriu seu papel até agora.

ANTIGOMÓVEL – Durante o processo de construção do museu, quais foram as principais dificuldades?
BADOLATOApenas financeiras. Foi uma alegria enorme. Minha esposa é engenheira e tocou a obra para mim, além de ter feito o projeto. Cada tijolo assentado era um pedacinho do sonho se transformando em realidade. A única dificuldade foi a ginástica financeira para não parar a obra em nenhum momento, do início ao fim.

ANTIGOMÓVEL – Você contou com alguma ajuda governamental?
BADOLATOZero, zero, zero! Pelo contrário, ainda gasto uma pequena fortuna com seguranças para suprir a ineficiência do Estado em garantir a integridade do patrimônio das pessoas. Além de gastar muito dinheiro para licenciar esses carros que praticamente não andam. Fora os impostos astronômicos pagos nas poucas importações de veículos antigos que fizemos para enriquecer o acervo do Museu do Dodge. Pagar Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) sobre um produto que foi produzido em outro país há mais de 40 anso é de uma insanidade ímpar!

ANTIGOMÓVEL – Atualmente, como você mantém o Museu do Dodge financeiramente? Recursos próprios, patrocínios…
BADOLATO100% próprio! Com todas as dificuldades inimagináveis.

ANTIGOMÓVEL – Como você analisa a atual situação dos museus espalhados pelo País?
BADOLATO –Muito muito triste. Deprimente. O Museu da Ulbra era um patrimônio do Rio Grande do Sul e do Brasil. Se o dono estava devendo impostos, estatiza o Museu, declara ele de utilidade pública e que mantivessem aquele acervo maravilhoso! O National Car Museum de Mulhouse, na França, foi estatizado quando os seus proprietários quebraram. E hoje é um dos museus mais importantes do mundo.

O Museu de Brasília sendo despejado para dar lugar a um depósito de papel velho das decadentes ferrorvias brasileiras. Isso é brincadeira. O Museu de Caçapava tentando juntar o que sobrou de décadas de depredação e abandono.

O Museu do Dodge sobrevivendo aos trancos e barrancos, uma vez que os recursos que poderiam ser utilizados para melhorar as condições de visitação e incrementar o acervo, são gastos com seguranças armados para manter sujeitos inescrupulosos à distância.

E os fabricantes? A General Motors chegou a colocar tapumes num terreno em São Caetano do Sul e depois leilou boa parte do acervo por alguns vinténs. E as outras montadoras que nunca se mexeram?

Uma exceção é o Tato`s Garage, uma bela coleção aberta a visitação no interior do Rio Grande do Sul, cujo único pecado é estar longe dos grandes centros.

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ANIGOMÓVEL – Gostaria de deixar essa última pergunta, Alexandre, para você falar um pouco do Museu do Dodge.
BADOLATO –Temos cerca de 40 carros no museu hoje e um outro tanto de carros aguardando restauração. Comecei a comprar estes carros quando não valiam quase nada, há 21 anos. Construi o meu acervo com muita dedicação e suor. A história completa está no livro ‘Dodge – História de uma Coleção’ , disponível no site www.museudodge.com. Uma das joias da nossa coleção é o último Dodge Dart produzido no mundo, carro que eu procurei por 16 anos e encontrei praticamente destruído no fundo de uma oficina. O Museu do Dodge ainda não está aberto ao público, recebendo visitas apenas em datas pré-determinadas.

Fonte: Marcelo Monegato

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